17/02/2011

O primeiro dia de aula - GABRIEL CHALITA


"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,/ a que se deu o nome de ano,/ foi um indivíduo genial./ Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão./ Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos./ Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente". O poema "O Tempo", de Carlos Drummond de Andrade, é perfeito para ilustrar um dia como o de hoje. Nesta segunda-feira, 14 de fevereiro, a esperança realmente se renova. Mais um ano letivo tem início nas escolas da rede estadual de ensino de São Paulo. Aproximadamente seis milhões de crianças, adolescentes, jovens e adultos começam uma nova jornada rumo à aventura do aprendizado, da descoberta, da capacidade de aprimorar talentos. Cabe a nós, educadores, acolher esses alunos, recebendo-os com o coração repleto de confiança, de expectativa e de crença na força desses seres em formação.
Além dos estudantes da rede estadual, há aqueles que frequentam as redes municipal e particular. Todos trazem no semblante o desejo de conhecer o novo, de explorar possibilidades e potenciais. A tendência do aluno é sempre gostar do professor. Trata-se de uma experiência diferente. E o que é diferente encanta, seduz. Compete ao educador manter essa chama acesa para que o sonho não esmoreça. Paulo Freire costumava dizer que o mais nobre papel do professor é o de gerenciar sonhos. E completava: "Professor é aquele que gosta de viver".
Gostar de viver é essencial para quem tem esse nobre mister de educar. Professores, diretores, funcionários, pais, mães... Educadores por excelência. Personagens que devem atuar juntos num palco onde convivem artistas extremamente talentosos: alunos e alunas que produzem, ensaiam e interpretam uma parte importante do texto de suas vidas. A união e o respeito entre esses atores é o que propicia o bom andamento do mágico espetáculo do aprendizado.
Neste novo ano escolar, o governador Geraldo Alckmin prossegue dando prioridade à educação. Mudanças e ajustes positivos vêm sendo feitos para tornar nossas escolas uma referência no processo ensino-aprendizagem. O ensino médio conta agora com seis aulas diárias. A disciplina de filosofia volta a fazer parte do currículo obrigatório. A capacitação de professores será intensificada. Muitos estarão fazendo curso de mestrado em Londres (Inglaterra), outros darão sequência aos cursos de extensão em Salamanca, na Espanha, e em Lisboa (Portugal). O maior número deles, entretanto, dá início ao mestrado no Brasil. O professor merece! Cuidar do maestro é certificar-se de que a orquestra será bem conduzida.
Nosso desejo é que, neste primeiro dia de aula, os diretores estejam receptivos aos alunos que chegam com a energia peculiar dos que têm sede de conquistas, sonhos, ideais. É preciso que os professores, por sua vez, preservem a atenção e o entusiasmo. É preciso que se interessem por conhecer o nome e a história de cada aprendiz. Da mesma forma, é necessário que os pais não deleguem unicamente à escola a missão de educar, porque, por melhor que ela seja, nunca vai suprir a carência deixada por uma família ausente. Educar é um trabalho que requer a união entre a escola, a família e a comunidade.
Acreditamos que a educação é composta por gestos e ações simples. Atitudes que ajudam a escola a ser mais participativa, envolvente. Basta lembrarmos dos exemplos do passado. Todos vivenciamos experiências novas e maravilhosas com os professores que tivemos ao longo da vida. E o exemplo contribui para que não precisemos repetir os erros daqueles que não tiveram a coragem de ser afetivos e de imitar carinhosamente aqueles que nos tocam a alma.
Grandes educadores de hoje contam histórias de seus mestres do passado. Rubem Alves fala de dona Clotilde, Inácio de Loyola Brandão fala de Joaquim Pinto Machado Júnior, o Machadinho... Já o saudoso Marcos Rey elegeu seu próprio pai como o mais original contador de histórias de sua vida. Professores deixam marcas indeléveis. Marcas que se perpetuam na memória e também no coração. Assim, que nesse primeiro dia de aula, cada mestre sinta no peito a mesma emoção de seu primeiro dia como professor. Dia em que se apresentou frente a uma plateia muito atuante e especial. Esperamos que todos esses personagens reais sejam capazes de sentir o mesmo frio na barriga que o grande ator Paulo Autran diz sentir quando sobe no palco e inicia, emocionado, mais uma peça de teatro.
Por tudo isso, a todos aqueles que se dedicam ao instigante espetáculo da educação: uma excelente aula... Hoje e em todos os dias deste ano, que simboliza, nos dizeres do poeta, mais um "milagre da renovação".

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